MAIS LUZ PARA UM ANJO AINDA OBSCURO: A NARRATIVA DE JORGE DE LIMA E AS POÉTICAS DE VANGUARDA
A singular aventura criadora de Jorge de Lima distribui-se em várias frentes. Embora Invenção de Orfeu seja o elemento centrifugador de seu conjunto de obra, espécie de súmula de toda sua aventura artística, não é menos digno de nota seu percurso pelas artes visuais (pintura, escultura, fotomontagens) e sua voracidade no seio mesmo da arte literária, explorando todos os recursos poéticos disponíveis e procurando ampliá-los, buscando, assim, uma linguagem inteiramente sua.
A enigmática e aparentemente indecifrável Invenção...parece ter um duplo efeito em relação às outras obras: o de consagrar definitivamente o poeta e, ao mesmo tempo, o de criar uma zona de sombra sobre os demais textos. Se essa parece ser a economia interna do conjunto de obra do autor, não deveria ser, no entanto, a política das leituras e interpretações de sua produção, porquanto as obras que circulam em torno do magnetismo de sua “biografia total” têm sua relevância e desempenham papel fundamental na compreensão do universo poético do escritor.
A hierarquia – se ela existe – dentro do sistema artístico de um autor, pode, assim, ser reconfigurada pelo olhar interpretativo. Devemos ler tudo, olhar tudo. É, nesse sentido, que não podemos negligenciar a importância do Jorge de Lima romancista.
Escritos entre 1927 e 1941 os romances do poeta alagoano não tiveram o mesmo destino dos textos de muitos de seus coetâneos, considerados hoje como verdadeiros clássicos da literatura brasileira. Registre-se aqui o fato de seus romances terem permanecido por longo tempo no limbo editorial e só recentemente terem sido reeditados.
Procuraremos, assim, aproximando a produção ficcional do autor alagoano da estética surrealista, verificar um pouco das razões que impediram que sua obra romanesca ocupasse seu merecido espaço no panorama da literatura brasileira das últimas décadas deste século. Uma das hipóteses, a do efeito magnetizador de seu grande poema épico, deve ser logo descartada, ou melhor, revertida, no sentido de entendermos a vocação do romancista e do poeta épico como atividades, interligadas, afinal há um ato de narrar subjacente à Invenção, assim como existem vários oásis poéticos que formam o substrato lírico de seus romances. Como afirma Jacques Rancière, “a lírica moderna se afirma numa relação singular com a epopéia, desafiada ou negada, esquecida ou repensada. Por trás do “wandering” lírico, há uma travessia grega, uma odisséia apagada e reinterpretada.” (1995, p.110)
O longo idílio que Jorge de Lima manteve com a estética surrealista pode ser uma boa pista para entendermos as pálidas referências dos historiadores da literatura brasileira à sua obra ficcional.
O afã de inaugurar estéticas inteiramente nossas e o sonho ingênuo de uma autoctonia pura dificultaram um pouco a vida daqueles escritores que mantiveram relações ambivalentes com as inovações das vanguardas, destas apenas tirando proveito; escritores que adotaram uma poética de expansão, trabalhando no sentido de uma angustiante ruptura, mas ao mesmo tempo garantindo e mantendo o aprimoramento de uma continuidade clássica. Em outras palavras, autores que não se engajaram diretamente em escolas literárias, mas que delas retiraram lições, sem contudo abandonar a tradição. Não se trata, portanto, de filiar a criação romanesca de Jorge de Lima ao surrealismo francês, mas de tentar verificar como o aproveitamento que o poeta faz das conquista estéticas desse movimento modifica sua própria narrativa, conferindo-lhe uma tonalidade bastante singular. Além disso, o que nos interessa do surrealismo não é o seu dogmatismo, mas sua natureza mais abrangente, afinal como afirma Blanchot “em toda pessoa que escreve há uma vocação surrealista confessa, que aborta, que aparece algumas vezes usurpada, mas que, mesmo falsa, expressa um esforço e uma necessidade sincera” (1997:88).
As relações de Jorge de Lima com a literatura francesa vêm desde Proust, quando o acaso – uma relevante categoria para o surrealismo – colocou em suas mãos uma edição da Recherche. Um piloto da companhia Lacoetière tendo que fazer um pouso forçado em Maceió procura o melhor médico local e lhe dá de presente um romance – segundo ele entediante – que havia recebido de um passageiro. Este passageiro era Henri Rochat, pintor suíço, que graças à intervenção de Proust, seu amigo, deslocava-se para Recife para assumir o emprego em um Banco. A leitura desta obra resulta em um dos primeiros ensaios sobre Proust no Brasil (Dois Ensaios). Em seu depoimento a Homero Senna (1997:57) o poeta nega a influência das vanguardas, principalmente a do futurismo (Marinetti), preferindo atribuir a herança das inovações literárias inteiramente a Proust. Sabemos, no entanto, que sua curiosidade de criador vai além disso: suas incursões pela fotomontagem e pela pintura, além de uma declarada preferência pela liberação espontânea dos estados poéticos revelam que as afinidades entre a poética do autor e as propostas surrealistas são maiores do que a explicação que o escritor dá de sua própria obra.
Já no primeiro romance, Salomão e as Mulheres, escrito em 1927, o narrador alerta:
Previno também que a leitura desse livro é desataviada e livre. Isto é, póde ser feita de detrás para diante, como de diante para trás.
Eu, por mim, comecei a escrevê-lo pelo ultimo capitulo, terminei pelo primeiro! (1927:10)
Observa-se, aqui, na primeira experiência narrativa, uma predisposição em desamarrar o romance de sua aderência absoluta à realidade empírica, de desatá-lo de sua natureza de relato lógico, porquanto a escrita, tal como a leitura sugerida pelo narrador, vai destaviada e livremente buscar uma formulação poética muito próxima das propostas surrealizantes. Mais do que na forma, contudo, estão nas isotopias temáticas as melhores pistas para se rastrear os traços surrealistas da ficção limiana. Uma delas é o recorrente tema da mulher amada. O romance A Mulher Obscura, título que nos faz remeter aos versos de Leopold Sédar Senghor, “femme nue, femme obscure” – outro escritor vinculado à poética do surreal – reúne em prosa narrativa as várias versões que este motivo ganhou ao longo da obra. Trata-se, aqui, como salientou Kristeva a respeito dos romances de Aragon “da busca do impossível representável ou do representável impossível que é o feminino” (2000:200).
Em Peixe Solúvel Breton afirma: “nós reduziremos a arte à sua mais simples expressão que é o amor”. Ferdinand Alquié considera a concepção bretoniana do amor como inteiramente platônica. O filósofo chama a atenção para que não se reduza o desejo que anima o surrealismo a um desejo de pura satisfação sensual. Preocupados em resolver de modo mais premente as questões das desigualdades sociais, os militantes de esquerda do movimento nunca viram com bons olhos essa obsessão surrealista que desvirtuava todo um projeto de revolução social.
Ora, o caso Jorge de Lima está, pela própria posição ideológica do escritor, fora desta encruzilhada em que os surrealistas franceses se encontraram. No escritor alagoano a temática amorosa não encontra qualquer obstáculo, percorrendo a obra inteira em todo o seu esplendor.
Contudo, um ponto de afinidade a ser ressaltado é o da orientação platônica que este tema também ganha na poética limiana. Todo caráter escatológico do desejo está inteiramente expurgado da narrativa de Jorge de Lima. As imagens de uma sexualidade explícita exploradas por alguns surrealistas não têm lugar em sua produção ficcional. Nesse sentido, a expressão amorosa de seus romances aproxima-se apenas de determinados aspectos de alguns seletos nomes do movimento como do discurso poético de Breton, da lírica de Éluard e do amor sublime de Benjamim Péret.
Em O Anjo – romance que destoa de todos os demais por apresentar de forma mais exacerbada as características propugnadas pelas poéticas de vanguarda, tais como quebra sintática, fragmentação, estilhaçamento, desarticulaçãodoselementos, enumeração caótica – o desejo de definir um rosto para a mulher amada, motivo constante da poesia, reaparece. Herói, o protagonista do romance é pintor. O fracasso da busca pelo ser amado confunde-se com o próprio insucesso da exposição de seus quadros:
O segundo quadro era a Bem-Amada. (Quadros sem dísticos no catálogo.)
O sexo em triângulo negro. Ombros hieráticos.
Era tudo uma usina de emoções grandiosíssimas.
Volume e cor chocavam tanto e o conjunto avultava tão sério e tão desagradável que emudeciam logo os camaradas que vinham sorrindo da representação do Anjo.
Que significa? Que significa? Perguntavam.
Mas todos estavam achatados diante da enorme tela. (Aliás, a grosseria da arte de Herói só se movia bem dentro de painéis enormes.)
O Herói fizera-o com o subconsciente preso à atitude da morta que vira na meninice. Coisas do jogo desconhecido de suas hereditariedades, obsessões, taras familiares, memória de homem cristão.
Um violoncelo berrava naquelas cores, naqueles volumes, naquela mística, só para crente de sensibilidade bem sincera.
(Que significa? Que significa?, sibilavam).
Aquilo era uma mulher mas não imitiva absolutamente uma mulher porque era justamente a Bem-Amada do pintor.
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Não imitava absolutamente uma mulher, porém traduzia uma sensação sexual cerebral transmitida do interior para o ambiente.
Um grave fundo místico confundia cores e linhas, se confundindo nas molduras.
A exposição, inaugurada às seis da tarde, foi invadida de esnobes que tudo analisaram e deitaram erudição da Collection de l’Esprit Nouveau. (O Anjo, p.20.)
À busca do “possível irrepresentável” vincula-se o desejo de uma supressão da distância entre a escrita e o pensamento. No que tange à escrita trata-se de sonhar o impossível sonho da facilidade, quando, na realidade, a narrativa escorre por entre anjos e terrores. Entretanto, a prosa limiana arranha a utopia de uma língua adâmica, anterior a todas as línguas: “Ele queria dizer seus pensamentos numa língua morta, aquém do sânscrito” (1998:54).
Voltando ao romance A Mulher Obscura, há uma cena – já destacada por Judith Grossman no posfácio da última edição desta obra – em que o protagonista-narrador Fernando toma consciência do olhar e da voz da personagem Irina, percebendo nela uma espécie de síntese da combinação de sonoridades e ritmos que resultam numa língua portuguesa renovada, inteiramente brasileira.
Queremos aproximar a análise desta cena da análise que David Wellbery faz de uma cena dos Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe. Trata-se de uma conversa em que Charlotte emite suas opiniões sobre a dança e sobre romances.Werther ao escutar atentamente o discurso de sua amada deixa-se “afundar” (versinken) no sentido maravilhoso do que ela dizia sem sequer perceber suas palavras. Wellberry fala aqui de um “nível a-semântico de apreensão” do personagem ouvinte-leitor que sucumbe ao fluxo de emoção evocado pelas palavras, descolando-se inteiramente do sentido que elas possam ter (1998:135). Num certo sentido, esta operação de esvaziamento semântico também se dá na escuta de Fernando, em A Mulher Obscura, posto que não é o que Irina diz que interessa, mas o jeito, a maneira dela dizer. Esta cleptomania do sentido – tão cara aos surrealistas – tem por objetivo não apenas ativar uma língua portuguesa inteiramente brasileira, mas recuperar nesta mesma língua a sua capacidade de alucinação e volúpia.
A narrativa, aqui, desafiando os surrealistas que abominaram o gênero, apresenta-se como um meio de preservação do desvairo e do visionarismo. O mesmo visionarismo convulsivo é detectável nos demais textos ficcionais, apesar de nestes, a ênfase no engenho e na estruturação da linguagem serem mais prementes. O insistente aparecimento do termo “supra-real” ao longo da narrativa de Guerra dentro do Beco, escrito em 1941 e publicado em 1950, por exemplo, é um é um dos indícios mais evidentes da presença do surrealismo na prosa do autor:
Na verdade, os traços da esposa se encontravam em quase todos, mesmo nos que traduziam coisas e seres ligados a ela. O desenho 49, por exemplo, em
latejantes, continha ainda os traços essenciais de Bruna, traços que o pintor confundia de propósito com os seres e as coisas dos três reinos naturais. E assim em dezenas de composições supra-reais sempre entremeadas do concreto e do positivo, transfundiram-se com fidelidade, as feições, o gesto, o olhar, o espírito, a própria Bruna. (1999:17).
Uma outra afinidade da prosa narrativa de Jorge de Lima com os surrealistas se dá através do tema do sonho. Para os surrealistas o sono é, de fato, um dos mais importantes estádios da experiência humana, no sentido de que abre as portas para a atividade onírica, um dos contactos mais ricos com a nossa vida arcaica. Lembremos, nesse sentido, a famosa frase “Le poète travaille” que o escritor Saint-Pol-Roux, ao recolher-se para dormir, colocava na porta de entrada de seu quarto. Breton, no Segundo Manifesto Surrealista, refere-se ao “naufrágio da mais lúcida razão no sono”. No primeiro Manifesto o líder do Surrealismo afirma:
Com justa razão Freud dirigiu sua crítica para o sonho. É inadmissível, com efeito, que esta parte considerável da atividade psíquica (pois que, ao menos do nascimento à morte do homem, o pensamento não tem solução de continuidade, a soma dos momentos de sonho, do ponto de vista do tempo, a considerar só o sonho puro, o do sono, não é inferior a soma dos momentos de realidade, digamos apenas: dos momento de vigília) não tenha recebido a atenção devida. A extrema diferença de atenção, de gravidade, que observador comum confere aos acontecimentos da vigília e aos do sono, é caso que sempre me espantou (1985: 41).
Este tema aparece igualmente trabalhado em Guerra dentro do Beco quando o narrador descreve os sonhos e os devaneios da personagem Bruna:
Para ela, os movimentos mais atrozes na sua vida eram ao despertar, pela manhã, mas independentemente disto, a qualquer isolamento, diurno, noturno, animais fantásticos saíam de suas próprias angústias e se corporizavam à beira do seu leito, enquanto a sua imaginação se punha a parir uma prole espantosa e irreal. Desde o primeiro sobressalto, eles brotavam de sua própria camisola, fazendo cabriolas impossíveis para soerguê-la, como se os suores, ou o seu recato os entontecessem ou contrariassem. Esses animais demonstram uma impaciência enorme em desnudá-la, e Bruna não pode imaginar como e quando irão avançar para ela com as inúmeras patas e apêndices. Duas bestas com trombas vêm visitá-la agora, e fitando-lhe o ventre, causam-lhe uma grande cólica.
À meia-noite, os bicharocos de mamas múltiplas, violáceas, extremamente móveis, despertam repentinamente e Bruna é impelida para um lago de sangue.
Estas bestas levantam a pata com estudada circunspecção, atentas, como um mecânico, ao movimento de sua máquina, ou sábio à sua experiência científica. Fazem um gesto vago, mas em lugar das molas, dos pesos, dos planos inclinados, dos teoremas, o que lançam no ar são apelos nominais, curtos apelidos, doces nomes de crianças. Logo, porém, desfazem este ritual de movimentos. Tornam-se excessivamente elásticos, estendem os lábios cobertos de uma grenha furta-cor, continuada em sobrancelhas e cílios espalhados por todo o corpo.
Então, de dentro dessas pestanas, dotadas de extrema motilidade surgem olhos violáceos, em forma de diafragma, estreitando-se e alargando-se a todo instante. Outras vezes, os olhos suspensos a pedúnculos irrigados de numerosas artérias e veias saltam das órbitas como abacates negros. (1997:37)
O tema do sonho é aqui trabalhado de modo a contribuir para o processo de fusão do discurso enunciativo com o discurso poético, inscrevendo o romance numa vertente da produção ficcional moderna que muito deve aos combates surrealistas. Nesse sentido, concordamos com Cortázar quando afirma que “qualquer romance contemporâneo com alguma significação revela a influência surrealista num sentido ou noutro; a irrupção da linguagem poética sem fim ornamental, os temas fronteiriços, a aceitação submissa de um transbordamento de realidade no sonho, o “acaso”, a magia, a premonição do não-euclidiano que procura se manifestar assim que aprendemos a lhe abrir as portas são contaminações surrealistas dentro da maior ou menor continuidade tradicional da literatura” (1998:81).
Enquanto romancista Jorge de Lima continua intrigante, rebelde às classificações redutoras. Ignorar sua narrativa é, no entanto, perder de vista uma importante linha evolutiva do romance brasileiro que se inicia com Adelino Magalhães tem continuidade em Otávio de Faria, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Clarice Lispector e Judith Grossmann. Esperamos, assim que este “olho mágico surrealista” que utilizamos para espiar a prosa narrativa do poeta seja mais um raio de luz sobre a obra deste anjo sempre belo e ainda obscuro, pois “que tudo é assim – a fábula vulgar/ que funde no homem, céu, terras e mar” (1997:559)
ALQUIÉ, Ferdinand. Philosophie du surréaisme. Paris, Flammarion, 1956.
BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
ARAGON, R. Le paysan de Paris. Paris: Gallimard, 1995.
BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. Trad. Luís Forbes. São Paulo: Brasiliense, 1985.
CORTÁZAR, Julio. “Surrealismo”. In: YURKIEVICH,Saul (org.). Obra Crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 76-82 .
KRISTEVA, Julia. “Aragon, o desafio e a impostura: um precursor?” In: Sentido e contra-senso da revolta. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. p. 175 – 202.
LIMA, Jorge de. Guerra dentro do beco. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
_____. O Anjo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998
_____. A mulher obscura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998
_____. Salomão e as mulheres. Rio de Janeiro: Paulo, Pongetti & Cia, 1927.
_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
Rancière, Jacques. Políticas da Escrita. Trad. Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
Wellbery, David. “Morfismos do corpo fantasmático”. In: LIMA, Luiz Costa e KRETSCHMER, Johannes (orgs.). Neo-retórica e desconstrução. Rio de Janeiro: EdUerj, 1998. p.119-151.